A delegada Jéssica Assis, da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), afirmou que o assassinato de Josivany Borges de Amorim Rodrigues, de 45 anos, em Várzea Grande, é um retrato da violência extrema praticada contra mulheres e da tentativa de negar sua autonomia sobre o próprio corpo.
O autor do crime, identificado como Gabryel Junio de Almeida Dirceu, de 20 anos, foi preso após sete dias de buscas ininterruptas e confessou participação no feminicídio. Segundo a investigação, a vítima foi morta depois de desistir de manter relações sexuais com o suspeito, mesmo após ambos terem combinado um programa em troca de dinheiro e drogas.
Para a delegada, o caso evidencia uma lógica de posse e controle sobre o corpo feminino.
“É mais um caso que a gente vê de uma completa e total objetificação do corpo da mulher, do descarte da autonomia de vontade do corpo feminino em relação ao que quer e ao que não quer fazer”, afirmou.
Visivelmente indignada com a brutalidade do crime, Jéssica destacou que a polícia não medirá esforços para responsabilizar autores de violência contra mulheres.
“É um caso revoltante e chocante. Nós não paramos enquanto não encontrarmos esses agressores, principalmente aqueles que tratam o corpo feminino e as mulheres com tamanho desprezo e crueldade”, declarou.
Vítima desistiu do programa e acabou assassinada
As investigações apontam que Josivany e Gabryel não se conheciam anteriormente. Eles se encontraram na noite de 31 de maio, em uma praça na região central de Várzea Grande, onde combinaram um programa sexual.
Os dois seguiram para uma residência abandonada e consumiram drogas. No entanto, antes da relação sexual, a mulher decidiu não prosseguir.
Foi nesse momento que, segundo a DHPP, a violência começou.
“A vítima se arrependeu. Chegou a consumir a droga em uma residência abandonada e depois falou que não queria mais”, relatou a delegada.
Imagens de câmeras de segurança obtidas pela polícia mostram Josivany caminhando ao lado do suspeito pouco antes do crime. Nas gravações, Gabryel aparece empurrando a vítima e a conduzindo para uma área de mata.
Durante o interrogatório, o suspeito alegou que a mulher teria tentado atacá-lo com uma faca para roubar drogas. A versão, contudo, não convenceu os investigadores.
Segundo a polícia, os vídeos mostram que a vítima tentava deixar o local e que não havia consentimento para a continuidade da relação.
“Ele disse que falou para ela: ‘Agora você vai, já consumiu a droga, eu te paguei’. Isso demonstra justamente o desrespeito à vontade da vítima e à sua autonomia”, destacou Jéssica Assis.
Corpo foi encontrado queimado em terreno baldio
O crime veio à tona na manhã de 1º de junho, quando o Corpo de Bombeiros foi acionado para combater um incêndio em um terreno baldio no bairro Centro-Sul, em Várzea Grande.
Após controlar as chamas, os militares encontraram um corpo feminino parcialmente carbonizado.
No local, policiais da DHPP constataram que a vítima estava sem roupas, apresentava lesões na cabeça e sinais de carbonização parcial. O corpo ainda havia sido escondido sob um tanque de lavar roupas quebrado, indicando tentativa de ocultação do cadáver.
Posteriormente, o Instituto Médico Legal (IML) identificou a vítima como Josivany Borges de Amorim Rodrigues, moradora do bairro Costa Verde.
Um dos pontos que mais chocou os investigadores foi o relato do próprio suspeito de que teria ateado fogo no corpo da vítima quando ela ainda estava viva.
Inicialmente, a polícia trabalhava com a hipótese de ocultação de cadáver, mas as novas informações podem ampliar o enquadramento criminal.
“Estamos apurando todas as circunstâncias. Há elementos que podem indicar outros crimes, inclusive tortura”, revelou a delegada.
Tentativa de apagar rastros
As investigações também apontam que Gabryel tentou dificultar sua identificação após o feminicídio.
Imagens de monitoramento mostram que ele entrou no terreno baldio usando uma roupa e saiu cerca de uma hora depois com vestimentas diferentes.
Segundo a DHPP, o suspeito foi até uma casa abandonada próxima ao local para trocar de roupa e esconder as peças utilizadas durante o crime.
Após ser localizado e preso no bairro Dom Aquino, em Cuiabá, ele indicou aos policiais o endereço onde havia escondido os objetos. As roupas foram apreendidas e encaminhadas para perícia.
Caso de Olga reforça alerta sobre violência contra meninas e mulheres
Ao comentar o feminicídio de Josivany, a delegada também relacionou o caso ao assassinato da adolescente Olga Beatriz Santos da Silva, de 12 anos, morta pelo próprio pai em Várzea Grande após ele descobrir mensagens trocadas pela menina com um rapaz.
Para Jéssica Assis, os dois episódios têm em comum o controle sobre a liberdade e a autonomia feminina.
“São dois casos que mostram o quanto é difícil ser mulher na sociedade. Um pai mata a filha porque ela expressa os seus primeiros desejos amorosos. Porque ela não tem autonomia de vontade. Ela não foi orientada; ela foi punida por se expressar, por começar a se desenhar como uma mulher perante a sociedade”, afirmou.
Prisão preventiva
Após ser interrogado na DHPP, Gabryel Junio de Almeida Dirceu foi autuado por feminicídio consumado.
Diante da gravidade do caso, a delegada representou pela conversão da prisão em flagrante em prisão preventiva. O pedido foi acolhido e o suspeito permanece à disposição da Justiça.
A Polícia Civil continua investigando o caso para esclarecer completamente a dinâmica do crime e verificar a possibilidade de novos enquadramentos penais diante da extrema violência empregada contra a vítima.
Jornalista: Mika Sbardelott