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Questões políticas travam envio de vacinas e insumos de China e Índia

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Laís Alegretti – @laisalegretti – Da BBC News Brasil em Londres

‘Brasil passado para trás’: as questões práticas e políticas que travam envio de vacinas e insumos de China e Índia

A aprovação do uso emergencial de duas vacinas contra a covid-19 no Brasil gerou no país a sensação de que a vacinação enfim deslancharia e permitiu que muitos vislumbrassem, ainda que lá longe, o fim da crise sanitária.

Com a aplicação das primeiras doses no mesmo dia da decisão da Anvisa, prefeituras por todo o país divulgavam seus calendários de imunização.

Durou pouco, no entanto, a impressão de que a vacinação iria adiante. Horas depois da aprovação das vacinas, os planos de imunização já começaram a enfrentar sérios percalços.

E o motivo é elementar: pouca vacina. O Brasil, que tem mais de 200 milhões de habitantes, tinha em seu território apenas 6 milhões de doses autorizadas para uso, todas da CoronaVac, quando começou a distribuição.

Agora, as perspectivas para a vacinação estão comprometidas pela falta de previsão da chegada de 2 milhões de vacinas vindas da Índia e também de insumos da China para produção de vacinas no Brasil, afetando tanto as doses do Instituto Butantan quanto da Fiocruz.

No mais recente desdobramento, a Fiocruz reconheceu que a falta de previsão de entrega do Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA) chinês pode atrasar a entrega dos primeiros lotes da vacina Oxford/AstraZeneca produzidas no Brasil, previstos inicialmente para 8 a 12 de fevereiro.

Esse cenário é explicado, segundo especialistas, pelas estratégias de política externa daqueles países, dificuldades burocráticas e pelo histórico recente da atuação do governo brasileiro em relação à Índia e à China.

Brasil passado para trás

“Há fatores técnicos e burocráticos atrapalhando o envio de ingredientes para a Fiocruz, mas há também uma prioridade dada pela China aos países africanos e pela Índia a seus vizinhos na Ásia. Em cima disso, existe o ingrediente de mal estar dos dois países com o governo brasileiro devido aos erros cometidos nesses primeiros dois anos (do governo Bolsonaro)”, disse à BBC News Brasil o diplomata aposentado Roberto Abdenur.

Ex-embaixador brasileiro em Pequim e em Washington, Abdenur diz que “o Brasil tem sido passado para trás por decisões de política externa da Índia e da China”.

Com uma carreira de 45 anos no Itamaraty, ele diz que o Brasil vive hoje um “quadro pavoroso” e que “tanto em Nova Delhi quanto em Pequim seguramente há um mal estar com o Brasil que não ajuda na hora de desespero em que nós estamos”.

Roberto Abdenur

Zeca Ribeiro / Câmara dos Deputados
“Tanto em Nova Delhi quanto em Pequim seguramente há um mal estar com o Brasil que não ajuda na hora de desespero em que nós estamos”, diz Abdenur, que foi embaixador na China e nos EUA

Na avaliação dele, a política externa do governo Bolsonaro “contribuiu e está contribuindo para agravar esta situação porque ela perdeu o crédito que tinha junto aos governo dessas duas grandes potências”.

“Há um incômodo em Pequim com as múltiplas desfeitas desferidas contra a China pelo próprio presidente Bolsonaro, por seus filhos, por seus assessores mais próximos e pelo chanceler Ernesto Araújo.”

Entre as diversas críticas à China, está a insinuação de que a China seria responsável pela pandemia, feita pelo deputado Eduardo Bolsonaro, filho do presidente, no Twitter, em uma comparação do momento atual com a tragédia nuclear de Chernobyl na década de 1980.

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Nada justifica

A pesquisadora da Fiocruz Margareth Dalcolmo mencionou, durante um evento, a notícia de que as vacinas da China e da Índia não viriam e diz que isso é “inaceitável”. Ela afirma que os produtos estavam prontos e pagos e que nada justifica esse cenário, mencionando em seguida que gestões diplomáticas fracassaram.

Nesta semana, o ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, disse que “a China não tem dado celeridade aos documentos de exportação necessários para que o IFA saia e venha para o Brasil”.

“Estamos fazendo movimentos fortes no nível diplomático para encontrar onde está essa resistência e resolver o problema”, afirmou o ministro.

Um brasileiro que acompanha as negociações em território chinês e conversou em condição de anonimato com a BBC News Brasil diz que a liberação dos insumos para a Fiocruz depende da decisão de um órgão interministerial chinês que tem decidido sobre exportação de insumos sensíveis.

Na China, a Embaixada do Brasil tem trabalhado de forma mais direta com as negociações relacionadas à vacina de Oxford/Astrazeneca, enquanto o escritório do governo de São Paulo no país trata das questões da CoronaVac.

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Procurada pela reportagem, a Embaixada do Brasil na China disse que está “em contato com as autoridades chinesas e com a empresa responsável pelo fornecimento dos insumos para identificar a melhor maneira de resolver a questão”.

A Embaixada da China em Brasília não respondeu às tentativas de contato feitas pela reportagem.

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, afirmou depois de reunião na Embaixada da China que o governo chinês disse que “não havia obstáculo político e que estava sendo resolvido”, em entrevista à Globo News, mas não detalhou quais seriam as questões técnicas.

Xi Jinping

Reuters
Presidente da China visitou o Brasil em 2019, quando ocorreu também a cúpula do BRICS

O economista Rodrigo Zeidan, professor da NYU Shanghai e da Fundação Dom Cabral, avalia que há questões de ordem prática emperrando as negociações na China. Ele menciona novos casos de coronavírus dentro da China e afirma que isso “muda um pouco os incentivos dos agentes, do governo, e dos governos locais”.

Zeidan também aponta que há uma disputa entre governos locais na China maior do que as pessoas imaginam e diz que a proximidade do Ano Novo Chinês (12 de fevereiro) atrapalha o cenário — mesmo considerando o contexto da pandemia.

“O país para. Essa é uma questão fundamental. Todo mundo que trabalha com comércio exterior sabe disso”, diz. “As fábricas já estão parando.”

Os atrasos

Em documento enviado ao Ministério Público Federal, a Fiocruz informou que adiou para março a entrega das primeiras doses. A assessoria de imprensa da Fiocruz diz que a entrega ainda está dentro do prazo previsto em contrato, mas afirma que o cronograma será detalhado quando a data do insumo estiver confirmada.

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“Ainda que sejam necessários ajustes no início do cronograma de produção inicialmente pactuado, a Fiocruz segue com o compromisso de entregar 50 milhões de doses até abril deste ano, 100,4 milhões até julho e mais 110 milhões ao longo do segundo semestre, totalizando 210,4 milhões de vacinas em 2021”, diz nota à imprensa.

Em relação à CoronaVac, o Instituto Butantan tem um acordo de receber da Sinovac o equivalente a 40 milhões de doses em IFA. O instituto informa ter recebido 4,8 milhões de doses em insumos, que já estão envasados e prontos, aguardando registro emergencial da Anvisa. Diz, ainda, que está dentro do cronograma firmado em contrato com o Ministério da Saúde, sendo que das 8,7 milhões de doses acordadas para entrega até 31 de janeiro, 6 milhões já foram disponibilizadas.

Vacina vinda da Índia

Monica Calazans, primeira pessoa a ser vacinada com a CoronaVac fora dos testes clínicos

Reuters
Enfermeira Monica Calazans foi primeira pessoa a ser vacinada com a CoronaVac fora dos testes clínicos

Além dos insumos para as vacinas a serem produzidas no Brasil, ainda é aguardado o carregamento de 2 milhões de doses da vacina da AstraZeneca fabricadas na Índia em um avião fretado pelo Ministério da Saúde.

O processo vem fracassando desde a semana passada . Com um avião pronto para trazer o imunizante, o governo brasileiro esbarrou em uma negativa do governo indiano e ainda aguarda uma definição sobre a compra.

Enquanto isso, a Índia anunciou o início da exportação do produto para seis países (Butão, Maldivas, Bangladesh, Nepal, Mianmar e Seychelles). O Brasil ficou de fora.

A falta de apoio do Brasil a uma proposta da Índia apresentada no ano passado à Organização Mundial do Comércio (OMC) tem sido apontada como um dos motivos para o entrave — a proposta era a quebra de patente temporária de produtos relacionados ao combate da pandemia.

“Nessa reunião, o Brasil, contrariando seus próprios interesses, foi o único país em desenvolvimento a tomar o lado dos países desenvolvidos na oposição à suspensão das patentes”, destaca Abdenur. “Essa política externa baseada na ideologia de extrema direita proveniente dos EUA, não está funcionado”, diz.

Procurado pela reportagem, o Ministério da Saúde disse apenas que “a entrega dos imunizantes ao Brasil passa por fase de licenciamento aduaneiro, tal como a autorização de exportação” e informou que o governo federal “está em contato constante com as autoridades indianas para acelerar, no que for possível, esse processo e trazer as vacinas para o país o mais rápido possível”.

A pasta não informou como esses atrasos afetarão os planos de distribuição das vacinas.

Enquanto isso, especialistas alertam que a situação da pandemia no Brasil deve se agravar entre o final de janeiro e o início de fevereiro , por motivos que incluem as festas de fim de ano, as variantes do coronavírus, a transição de governo em muitas cidades brasileiras.


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Fonte: IG SAÚDE

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Enfermeira atravessa rio para vacinar idosa na Paraíba

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Enfermeira atravessou rio no interior da Paraíba para vacinar idosa
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Enfermeira atravessou rio no interior da Paraíba para vacinar idosa

Uma enfermeira viralizou nas redes sociais após atravessar um rio para conseguir vacinar uma idosa, em São José de Espinharas (PB) . O caso aconteceu na última quinta-feira (04), quando o serviço de imunização da cidade realizava a vacinação em idosos.

Em um vídeo compartilhado na internet, a profissional atravessa o rio com os equipamentos necessários para a imunização.

Em entrevista ao G1, a enfermeira Mayane Brito contou que tomou a atitude após ver a dificuldade de locomoção até o bairro onde a moradora estava. Ela lembra que ainda precisou de uma carona de moto para conseguir imunizar a idosa, que seria a última a ser vacinada no dia.

“Não dava para atravessar de carro para ir vacinar essa idosa e só faltava ela. O carro ficou me esperando, eu atravessei a pé e eu pedi a uma pessoa amiga da senhora para me pegar de moto do outro lado do rio para eu poder vacinar a senhora”, afirmou.

Mayane ressaltou o pensamento de querer que alguém fizesse o mesmo pela própria mãe, o que reforço a ideia de atravessar o rio.

“Quando eu cheguei em casa nesse mesmo dia, me vi pensando que se fosse minha mãe – que infelizmente não está aqui mais hoje comigo, pois vai fazer cinco meses que ela faleceu – eu gostaria que um profissional de saúde atravessasse o rio para vacinar ela também”, completou.

A Secretaria da Saúde de São José de Espinharas informou que a profissional participava do programa de imunização para idosos entre 80 e 89 anos na cidade. Segunda a pasta, 24 moradores foram imunizados até o momento.  

Fonte: IG SAÚDE

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