Angélica Saraiva de Sá, conhecida como “Angeliquinha”, de 34 anos, apontada pela Polícia Civil como uma das principais lideranças do Comando Vermelho no norte de Mato Grosso, continuava, mesmo foragida na Bolívia, a exercer influência sobre as atividades da organização criminosa na região de Alta Floresta, a 789 quilômetros de Cuiabá.
Segundo o delegado Victor Hugo Caetano de Freitas, da Gerência de Combate ao Crime Organizado (GCCO), Angeliquinha seria responsável pela determinação de cerca de 80% dos homicídios praticados por integrantes de facções criminosas em Alta Floresta e municípios próximos.
A mulher foi presa na noite de terça-feira (22), em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, após permanecer foragida desde 17 de agosto de 2025, quando escapou da Penitenciária Feminina Ana Maria do Couto May, em Cuiabá.
De acordo com o delegado, a atuação de Angeliquinha não teria sido interrompida mesmo durante o período em que esteve presa e, posteriormente, depois de fugir para o país vizinho.
“Desde que ela começa a se destacar nas atividades criminosas, ela passa a ser a líder da organização criminosa ali naquela região. Então, a partir disso, ela não sai mais da liderança, mesmo quando é presa e mesmo agora que estava na Bolívia”, afirmou Victor Hugo.
Ainda segundo o investigador, a liderança atribuída a Angeliquinha abrangia diferentes áreas de atuação da organização, entre elas tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e homicídios.
“Ela é a mandante de, vamos colocar, 80% dos homicídios praticados por facção criminosa na cidade de Alta Floresta e circunvizinhas”, declarou o delegado.
Investigação sobre atuação na Bolívia
Para a Polícia Civil, a permanência de Angeliquinha em Santa Cruz de la Sierra pode estar relacionada à posição estratégica da cidade para o tráfico internacional de drogas.
Victor Hugo afirmou que a investigação ainda vai apurar qual era exatamente a função desempenhada pela suspeita em território boliviano. Entre os pontos que deverão ser analisados estão possíveis articulações relacionadas à entrada e saída de drogas e negociações entre integrantes de organizações criminosas.
Dados telemáticos e outros elementos reunidos durante a investigação deverão ser analisados para esclarecer a atuação dela no país.
Mais de cinco procedimentos estéticos no rosto
Além da tentativa de permanecer escondida, Angeliquinha teria recorrido a procedimentos estéticos para modificar a própria aparência.
Segundo o delegado, ela realizou mais de cinco procedimentos no rosto enquanto estava em Santa Cruz de la Sierra. A suspeita também teria apresentado documentação falsa no momento da prisão.
Apesar das mudanças físicas, a identificação visual já havia sido realizada pelas equipes policiais.
“Santa Cruz de La Sierra é uma referência em procedimentos estéticos de baixo custo. Ela tinha várias cirurgias estéticas e agora começou a mudar o rosto, com essa intenção de ludibriar eventuais ações em desfavor dela”, explicou Victor Hugo.
O delegado afirmou ainda que a utilização de procedimentos estéticos para alteração de características físicas tem sido observada em outros casos envolvendo foragidos da Justiça.
Fuga da penitenciária
Angeliquinha deixou a Penitenciária Feminina Ana Maria do Couto May na madrugada de 17 de agosto de 2025. Na ocasião, segundo as informações policiais, ela fugiu acompanhada de Jessica Leal da Silva, de 36 anos, conhecida como “Arlequina”.
Desde então, passou a ser procurada pelas forças de segurança.
A prisão em Santa Cruz de la Sierra contou com a participação de equipes da Gerência de Combate ao Crime Organizado (GCCO), Delegacia Especializada de Repressão ao Crime Organizado (Draco) e Polinter, além do apoio das forças de segurança bolivianas.
Angeliquinha estava incluída no Programa Captura, do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), voltado à localização e prisão de pessoas consideradas prioritárias pelas autoridades de segurança.
Família investigada por tráfico e lavagem de dinheiro
Angélica também é citada nas investigações da Operação Showdown, que apura uma estrutura de tráfico de drogas em Alta Floresta.
De acordo com a Polícia Civil, integrantes da família de Angeliquinha estariam ligados à organização criminosa e a um esquema que teria movimentado mais de R$ 20 milhões em aproximadamente um ano e sete meses.
As investigações apontaram o uso de empresas dos setores de calçados, beleza e roupas multimarcas, além de plataformas digitais de jogos de azar, como mecanismos que, segundo a polícia, teriam sido utilizados para dar aparência lícita a recursos provenientes das atividades criminosas.
Outro braço investigado envolve a exploração de garimpo irregular na região de Alta Floresta.
Segundo a investigação, o pai de Angeliquinha, Paulo Felizardo de Sá, seria responsável pelo gerenciamento de um garimpo e de um bar com prostituição nas proximidades de Nova Bandeirantes. O local é apontado pela polícia como possível ponto de apoio para extorsões contra garimpeiros e tráfico de drogas.
A investigação também apura se o ouro extraído irregularmente teria sido utilizado para ocultar e reinserir recursos ilícitos no mercado formal.
Filha se manifesta nas redes sociais
Após a prisão da mãe, Kauany Beatriz de Sá, de 21 anos, publicou uma mensagem nas redes sociais pedindo proteção para Angeliquinha.
“Deus cuide de você, minha rainha. Que nem um mal aconteça em nome de Jesus. Não faça nem um mal contra a vida dela. Não é certo, mas é minha mãe”, escreveu.
Kauany também foi alvo da Operação Showdown. Em março de 2026, a prisão preventiva dela foi convertida em prisão domiciliar.
Na operação, também foram presos Paulo Felizardo de Sá, pai de Angeliquinha, e Guilherme Laureth, apontado como genro dela.
Transferência para o Brasil
Apesar da prisão em Santa Cruz de la Sierra, Angeliquinha ainda não havia sido deportada ou expulsa da Bolívia, conforme informou o delegado Victor Hugo.
As autoridades brasileiras, entretanto, já iniciaram os procedimentos necessários junto às autoridades bolivianas para viabilizar o retorno da suspeita ao sistema penitenciário brasileiro.
A Polícia Civil afirma que a investigação continuará para esclarecer, entre outros pontos, como Angeliquinha manteve contato com integrantes da organização criminosa durante o período em que esteve foragida e qual era sua efetiva função em Santa Cruz de la Sierra.