Saúde

Cuiabá veta caderneta do Ministério da Saúde e transforma pré-natal em disputa ideológica

Lei proposta por Samantha Iris proíbe distribuição da edição 2026 na rede municipal; decisão gera questionamentos sobre autonomia médica, informação às gestantes e politização da saúde pública

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A Prefeitura de Cuiabá oficializou nesta segunda-feira (10) a proibição da distribuição da edição 2026 da Caderneta da Gestante, elaborada pelo Ministério da Saúde, nas unidades públicas da Capital. A medida, publicada no Diário Oficial do Município, é resultado de proposta da vereadora e primeira-dama Samantha Iris (PL) e coloca no centro de uma disputa política um material que, tradicionalmente, é utilizado como instrumento de orientação e acompanhamento da gestação.

A decisão chama atenção porque a caderneta não é um panfleto político, mas um documento de orientação em saúde que reúne informações sobre pré-natal, parto, puerpério, direitos das gestantes, cuidados com o bebê e atendimento no Sistema Único de Saúde (SUS).

A Prefeitura afirma que a restrição não afetará o atendimento médico, os registros clínicos nem a assistência às vítimas de violência sexual. Também sustenta que poderá produzir um material próprio para substituir a publicação federal.

Mas é justamente aí que surge uma das principais questões: por que um município decidiu retirar de circulação uma publicação nacional de orientação em saúde em vez de simplesmente complementar suas informações com material próprio?

A disputa deixou de ser sobre saúde?

Segundo Samantha Iris e o prefeito Abílio Brunini, a decisão estaria relacionada às mudanças introduzidas na edição de 2026 da caderneta.

Entre as críticas apresentadas está o uso da expressão “pessoa que gesta” em determinados trechos, em substituição a termos como “mulher” e “mãe”, além da inclusão de orientações específicas para pessoas trans.

A publicação também informa que homens trans podem engravidar e estabelece que essas pessoas devem receber atendimento durante a gestação, parto, pós-parto e amamentação sem discriminação.

Para os críticos da caderneta, essas mudanças representam uma alteração ideológica do conteúdo. Para o Ministério da Saúde, trata-se de uma tentativa de garantir que diferentes pessoas que podem engravidar tenham acesso adequado à assistência.

O problema é que, no meio dessa disputa política, quem pode acabar pagando a conta é justamente a gestante que precisa de informação clara e assistência adequada.

Aborto também entrou no centro da polêmica

Outro ponto utilizado para justificar a medida é o conteúdo relacionado à interrupção da gravidez em situações previstas pela legislação brasileira.

A caderneta aborda a gestação decorrente de violência sexual e apresenta informações sobre as hipóteses legais de interrupção da gravidez.

Atualmente, conforme a legislação e o entendimento jurídico vigente, são reconhecidas situações como gravidez decorrente de estupro, risco de vida para a mulher e anencefalia fetal.

A administração municipal, entretanto, sustenta que a nova publicação teria ampliado indevidamente essas possibilidades.

Aqui está outro ponto que merece atenção: informar uma paciente sobre um direito previsto no ordenamento jurídico não equivale a obrigá-la a exercer esse direito.

Uma cartilha de saúde pública não deveria ser avaliada apenas pelo filtro ideológico de quem governa. Seu objetivo deveria ser fornecer informação para que pacientes e profissionais saibam quais são os procedimentos, direitos e cuidados existentes dentro da legislação.

Município pode substituir orientação nacional por material próprio

A Prefeitura afirma que poderá elaborar uma caderneta própria, com informações sobre pré-natal, parto, puerpério, saúde da mulher, proteção à maternidade e direitos legalmente assegurados.

A iniciativa pode parecer, à primeira vista, uma simples adequação administrativa. Mas levanta outra questão importante: quantos materiais diferentes sobre saúde da gestante o SUS terá de produzir conforme a orientação política de cada município?

A Caderneta da Gestante é elaborada pelo Ministério da Saúde justamente para estabelecer uma referência nacional de informação e acompanhamento.

Se cada prefeitura decidir retirar conteúdos considerados ideologicamente inadequados e produzir sua própria versão, corre-se o risco de transformar uma política nacional de saúde em uma coleção de versões municipais.

Ideologia dentro do consultório

A decisão de Cuiabá também expõe uma discussão maior sobre os limites da política na saúde pública.

É legítimo que gestores questionem conteúdos de materiais oficiais, apresentem críticas e proponham melhorias. O que merece questionamento é quando uma ferramenta de orientação médica passa a ser tratada como instrumento de batalha cultural.

O atendimento de uma gestante não deveria depender de sua identidade, de sua visão política ou da preferência ideológica do governo de plantão.

Se uma mulher ou uma pessoa trans chega a uma unidade do SUS grávida, o papel do poder público é garantir informação, atendimento, respeito e segurança.

E se existem trechos considerados inadequados pela Prefeitura, eles podem ser debatidos tecnicamente. O caminho mais razoável seria apresentar as críticas, solicitar correções e complementar o material — não simplesmente retirar uma publicação nacional da rede pública.

Saúde pública não deveria escolher lado

A decisão de Cuiabá transforma uma caderneta de pré-natal em mais um capítulo da polarização política brasileira.

De um lado, a Prefeitura diz defender uma abordagem que considera mais adequada à saúde da mãe e do bebê. De outro, está um documento produzido pelo Ministério da Saúde que incorporou orientações destinadas a públicos específicos e informações sobre direitos previstos na legislação.

No fim das contas, pré-natal não deveria ser campo de batalha ideológica.

Gestantes precisam de informação confiável, profissionais precisam de protocolos claros e o SUS precisa garantir atendimento sem discriminação.

A discussão sobre o conteúdo da caderneta é legítima. O que não parece razoável é permitir que a disputa política determine quais informações uma paciente terá acesso quando procurar uma unidade de saúde.

Em Cuiabá, a caderneta deixou de ser apenas uma caderneta. Virou símbolo de uma guerra política — e agora resta saber se, nessa batalha, a prioridade continuará sendo a saúde de quem precisa do SUS.

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Saúde

Água com coliformes fecais leva restaurante a terceira interdição em Cuiabá

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Um restaurante localizado na Avenida Carmindo de Campos, no bairro Jardim Paulista, em Cuiabá, foi interditado pela terceira vez na noite desta sexta-feira (31) durante uma operação conjunta da Polícia Civil e da Vigilância Sanitária Municipal. O estabelecimento voltou a ser flagrado funcionando normalmente, mesmo sem autorização para retomar as atividades e sem corrigir as irregularidades sanitárias apontadas nas fiscalizações anteriores.

A primeira interdição ocorreu em 14 de julho, quando fiscais encontraram uma série de problemas que colocavam em risco a saúde dos consumidores. Entre as irregularidades estavam a falta de higiene na área de manipulação dos alimentos, acúmulo de sujeira em equipamentos, pisos e tubulações de gás, além de condições estruturais consideradas precárias.

Outro problema grave identificado foi um vazamento de esgoto na parte dos fundos do imóvel. Exames também detectaram a presença de coliformes fecais na água utilizada pelo restaurante para lavar alimentos, preparar refeições e fabricar gelo.

Segundo as autoridades sanitárias, a utilização de água contaminada representa um sério risco à saúde pública, podendo provocar infecções gastrointestinais, diarreia intensa, dores abdominais, náuseas, vômitos, febre e desidratação, especialmente em crianças e idosos.

Até o momento, o responsável pelo estabelecimento não apresentou um novo laudo que comprove que a água utilizada está própria para consumo.

Restaurante descumpriu interdição

No dia 17 de julho, uma nova inspeção foi realizada para verificar se as irregularidades haviam sido sanadas. No entanto, os fiscais constataram que os problemas permaneciam e que os cartazes de interdição haviam sido retirados, enquanto o restaurante seguia atendendo normalmente.

Na ocasião, a interdição foi mantida e novos avisos foram fixados pela Vigilância Sanitária.

Já na noite desta sexta-feira (31), equipes da Delegacia Especializada de Defesa do Consumidor (Decon) e da Vigilância Sanitária retornaram ao local e encontraram novamente o estabelecimento em funcionamento, preparando alimentos sem autorização para reabrir.

Desta vez, os fiscais verificaram que, em vez de remover o cartaz de interdição, o responsável teria coberto o aviso com folhas de papel, impedindo que os consumidores visualizassem a restrição.

Irregularidades permanecem

Durante a fiscalização, os agentes constataram que praticamente todas as irregularidades persistiam.

Foram encontrados novamente equipamentos e pisos com acúmulo de sujeira, tubulações de gás sem a limpeza adequada, vazamento de esgoto nos fundos do imóvel e a ausência do laudo que atestasse a qualidade da água utilizada no preparo dos alimentos.

No momento da operação, o proprietário não foi localizado. Apenas funcionários estavam no restaurante e informaram aos fiscais que atuavam como freelancers.

Proprietário poderá responder criminalmente

A Vigilância Sanitária renovou a interdição do estabelecimento e reforçou que o restaurante somente poderá retomar suas atividades após corrigir todas as irregularidades apontadas e obter autorização expressa do órgão sanitário.

A Polícia Civil alertou que, caso o proprietário insista em reabrir o estabelecimento sem cumprir as exigências e sem a devida liberação, serão adotadas medidas judiciais cabíveis, e o responsável poderá responder criminalmente pelo descumprimento das determinações impostas pelas autoridades sanitárias.

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