O episódio de um boné do PT usado pela secretária de Educação de Várzea Grande, Maria Fernanda, acabou revelando algo muito maior do que uma simples divergência política: a disposição do prefeito de Cuiabá, Abilio Brunini (PL), de transformar a preferência partidária de seus subordinados em critério para permanência no governo.
Depois da repercussão da imagem de Maria Fernanda em um evento do senador Carlos Fávaro (PSD), Abilio decidiu subir o tom. E não apenas criticou a permanência da secretária na gestão da prefeita Flávia Moretti (PL). Anunciou que, em Cuiabá, integrantes de sua equipe que vestirem símbolos do PT ou participarem de manifestações da legenda serão convidados a deixar o governo.
“Se alguém na minha gestão estiver vestindo a camisa vermelha, ou do PT, ou do Lula, não sei o quê, pede pra sair”, afirmou.
A frase é forte — e merece ser levada a sério.
Prefeitura não é extensão de partido
Cargos comissionados são, de fato, cargos de confiança. O prefeito tem prerrogativa para escolher sua equipe e pode substituir secretários quando entender que perdeu a confiança política ou administrativa.
Mas existe uma diferença importante entre exigir confiança para executar um programa de governo e exigir demonstração pública de fidelidade partidária.
Quando um gestor afirma que um secretário pode perder o cargo simplesmente por vestir a camisa de um partido ou participar de uma manifestação política, a discussão deixa de ser sobre competência administrativa e passa a ser sobre patrulhamento ideológico.
E essa é uma linha perigosa.
O secretário pode discordar politicamente do prefeito e, ainda assim, cumprir corretamente suas funções. Pode votar em outro candidato. Pode ter outra visão de país. Pode até participar de uma manifestação política fora do expediente.
O que deveria determinar sua permanência na função pública é, principalmente, sua capacidade de exercer o cargo, cumprir as determinações legais e entregar resultados.
Abilio diz que vai “agir como Lula”
A declaração ganhou ainda mais sabor político quando Abilio afirmou que pretende “agir como Lula”.
“Eu pretendo agir como o Lula agiria. Se o Lula ia mandar embora, eu vou mandar embora”, disse.
A comparação é curiosa.
Abilio construiu boa parte de sua trajetória política justamente se apresentando como um dos críticos mais contundentes do campo político petista. Agora, utiliza Lula como referência para justificar uma política de cobrança de lealdade política dentro de seu próprio governo.
É uma ironia que não passa despercebida.
O prefeito parece defender, na prática, uma lógica simples: se você está comigo, permanece; se demonstra simpatia pelo adversário, está fora.
O problema é que administração pública não deveria funcionar como torcida organizada.
O boné virou mais importante que o trabalho?
Maria Fernanda afirma que suas convicções políticas não interferem em seu trabalho e que consegue separar sua vida pessoal de sua atuação técnica.
Essa explicação pode ser questionada politicamente, mas também deveria ser considerada.
A pergunta que fica é objetiva: o trabalho da secretária deixou de ser eficiente porque ela usou um boné do PT?
Se a resposta for não, qual é exatamente a falta cometida?
Abilio pode perfeitamente discordar da postura da secretária. Pode considerar inadequado que alguém de um governo identificado com determinado grupo político participe de um evento de uma corrente adversária.
Mas transformar o uso de um símbolo partidário em motivo automático para exoneração revela uma concepção bastante rígida de administração: a de que o ocupante do cargo precisa não apenas cumprir suas funções, mas também vestir a mesma camisa ideológica do chefe.
E a liberdade política?
A questão também ultrapassa a disputa entre PT e PL.
Se hoje o critério for “não pode usar símbolo do adversário”, amanhã outro prefeito poderá dizer que seu secretário não pode participar de uma manifestação de determinada igreja, movimento social, sindicato, entidade empresarial ou grupo político.
A lógica é perigosa justamente porque pode ser aplicada por qualquer lado.
O princípio deveria ser o mesmo para todos: não importa se o servidor simpatiza com Lula, Bolsonaro, Abilio, Flávia, Fávaro ou qualquer outro político. O que importa é como ele exerce a função pública.
Caso contrário, a administração corre o risco de se transformar em uma espécie de clube de fidelidade política.
Crítica a Flávia expõe racha entre aliados
Além de defender sua própria política de “tolerância zero”, Abilio aproveitou o episódio para cutucar Flávia Moretti.
Segundo ele, a decisão da prefeita de manter Maria Fernanda demonstra que ela não age como Lula agiria.
A declaração expõe uma situação curiosa: dois prefeitos do mesmo campo político, ambos do PL, adotam posturas completamente diferentes diante do mesmo episódio.
Flávia decidiu preservar a secretária. Abilio diz que a mandaria embora.
No meio da disputa, um simples boné acabou servindo como combustível para uma briga política maior.
Tolerância zero — mas para quê?
Abilio tem todo o direito de escolher sua equipe e estabelecer as diretrizes políticas de seu governo.
Mas existe uma diferença entre governar com princípios e governar exigindo demonstrações públicas de lealdade partidária.
Se o desempenho administrativo de um secretário é ruim, exonere-se.
Se há suspeita de corrupção, investigue-se.
Se há desobediência às diretrizes legais do governo, cobre-se.
Mas se o único problema é a cor do boné, a discussão deixa de ser administrativa e passa a ser essencialmente política.
E talvez seja exatamente isso que Abilio esteja dizendo, sem rodeios: na Prefeitura de Cuiabá, para alguns cargos, não basta trabalhar bem. É preciso estar politicamente do lado certo.
A grande questão é: “lado certo” segundo quem?
Jornalista: Mírian Marques
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