Após a rejeição inédita da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2027, a Prefeitura de Cuiabá decidiu adiar o reenvio da proposta à Câmara Municipal para a segunda quinzena de outubro, quando já terão passado as eleições. A estratégia do prefeito Abilio Brunini (PL) conta com o apoio da base governista e tem como objetivo evitar que a discussão sobre o orçamento seja transformada em mais um campo de batalha eleitoral dentro do Legislativo.
O adiamento ocorre em meio a um ambiente de forte disputa política na Câmara, marcado pela eleição da nova Mesa Diretora para o biênio 2027-2028 e pelo rompimento entre grupos que até recentemente compunham a base de apoio ao prefeito.
O vereador Rafael Ranalli (PL) afirmou nesta terça-feira (11) que o momento político vivido pela Casa não favorece uma discussão técnica sobre as diretrizes orçamentárias.
“Eu acredito que, depois da eleição, já vai estar mais pacificado, tanto de um lado quanto para o outro. E também a gente tem hoje, aqui dentro da Câmara, esse clima das próprias eleições gerais e municipais. Acho que não é o momento [de votar agora]. Ele falou isso para a gente da base e a gente anuiu com ele”, afirmou.
Risco de transformar a LDO em palanque
Ranalli também reconheceu que a votação neste momento poderia abrir espaço para que a LDO fosse utilizada como instrumento de disputa política entre vereadores.
Segundo ele, parte dos parlamentares está diretamente envolvida nas eleições ou apoia candidatos e grupos políticos que podem utilizar eventuais críticas ao prefeito ou ao projeto como estratégia eleitoral.
“Eu concordo com esse posicionamento dele, até para dar mais tempo para a gente discutir e evitar que alguns vereadores utilizem [o projeto] como palanque eleitoral. Vários vereadores aqui ou são candidatos, ou apoiam alguém que pode se beneficiar de um ataque ao prefeito ou de um ataque à LDO. E a cidade não precisa disso nesse momento”, declarou.
A avaliação da base é de que o adiamento pode reduzir a pressão política e permitir que o texto seja novamente analisado com maior espaço para negociação entre Prefeitura e vereadores.
Rejeição inédita expôs racha na Câmara
A primeira versão da LDO foi rejeitada pelos vereadores em 16 de julho. O projeto recebeu apenas 12 votos favoráveis, quando eram necessários 14 para aprovação.
A votação ocorreu em um dos momentos mais tensos da atual legislatura e acabou evidenciando o rompimento definitivo entre grupos que sustentavam o bloco governista.
Na mesma época, uma decisão judicial suspendeu a votação de uma proposta que permitiria a reeleição da vereadora Paula Calil (PL) para a Presidência da Mesa Diretora. O episódio aprofundou o desgaste entre os parlamentares e contaminou ainda mais as relações políticas dentro da Casa.
Eleição da Mesa virou centro da disputa
Nos bastidores, a sucessão da Presidência da Câmara se transformou no principal foco de tensão entre os vereadores.
Atualmente, três candidaturas estão colocadas na disputa pelo comando do Legislativo no biênio 2027-2028: Paula Calil, Dilemário Alencar (União) e Ilde Taques (PSB), que encabeça uma chapa de oposição.
O grupo liderado por Ilde Taques conta atualmente com um bloco de 13 votos articulados nos bastidores. O cenário, porém, ainda é considerado indefinido, já que nenhum dos grupos possui maioria suficiente para garantir antecipadamente a vitória.
Com isso, a votação da LDO passou a ser observada também como um possível instrumento de pressão nas negociações internas pela composição da próxima Mesa Diretora.
Câmara reduz sessões durante período eleitoral
Enquanto o impasse permanece, os vereadores aprovaram uma resolução que modifica o funcionamento das sessões ordinárias entre agosto e outubro.
Pelo novo formato, o plenário terá apenas um dia de sessões por semana, com duas reuniões no mesmo dia: uma no período da manhã e outra à tarde.
A alteração ocorre justamente durante o período que antecede as eleições e reduz a frequência dos trabalhos legislativos presenciais.
Na prática, a medida diminui a exposição dos vereadores em debates na tribuna e permite que os parlamentares concentrem mais tempo nas atividades eleitorais.
“Guerra fria” deve continuar
Sem um acordo consolidado entre os grupos governista, independente e de oposição, a Câmara de Cuiabá entra em uma espécie de “guerra fria” política.
O adiamento da LDO para outubro tira momentaneamente a pressão sobre o Legislativo, mas não resolve o problema. A disputa pela Presidência da Câmara continua aberta e deve influenciar diretamente as negociações em torno do orçamento.
A tendência é que os principais confrontos sejam empurrados para o pós-eleição, quando os vereadores voltarão ao plenário com o resultado das urnas definido e terão de retomar tanto a discussão da LDO quanto a definição da nova Mesa Diretora.
Até lá, a estratégia do grupo de Abilio é evitar que o orçamento municipal seja transformado em palanque eleitoral — embora, nos bastidores da Câmara, a disputa política esteja longe de esfriar.
Jornalista: Luan Schiavon
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