Mirella Almeida Soares

Cuiabá não precisa de menos árvores. Cuiabá precisa de mais consciência. 🌳☀️

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As imagens da Rua Baltazar Navarros escancaram uma realidade preocupante: em uma das cidades mais quentes do Brasil, seguimos assistindo a retirada da arborização urbana como se árvores fossem obstáculos ao desenvolvimento, quando na verdade são instrumentos de sobrevivência coletiva.

Não estamos falando apenas de paisagismo. Estamos falando de saúde pública, conforto térmico, qualidade do ar, drenagem urbana, equilíbrio climático, valorização urbana e dignidade humana. Uma árvore adulta reduz significativamente a temperatura local, ameniza ilhas de calor, protege o solo, absorve carbono e melhora diretamente a qualidade de vida da população.

Sob a visão técnica e ambiental, retirar árvores sem planejamento adequado compromete o microclima urbano e agrava os impactos ambientais já sentidos diariamente pela população cuiabana. Em uma cidade que enfrenta temperaturas extremas, a arborização não é luxo: é necessidade estratégica de adaptação climática.

Sob a ótica jurídica, a Constituição Federal assegura, em seu artigo 225, o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, impondo ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações. O Estatuto da Cidade e a legislação ambiental também reforçam a necessidade de planejamento urbano sustentável e proteção da vegetação urbana.

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Sob a visão cidadã, fica o sentimento de tristeza e impotência ao ver ruas antes sombreadas e vivas se transformando em corredores áridos de concreto e calor. O desenvolvimento urbano não pode caminhar desconectado da responsabilidade ambiental. Progresso sem sustentabilidade não é avanço, é retrocesso disfarçado de modernidade.

Precisamos discutir com urgência políticas públicas sérias de arborização urbana, compensação ambiental eficiente, planejamento territorial responsável e fiscalização efetiva. Cuiabá não pode continuar perdendo suas árvores enquanto a população sofre, ano após ano, com o aumento extremo das temperaturas.

Uma cidade sem árvores perde sombra, perde vida, perde identidade e perde humanidade.

Preservar árvores urbanas é preservar pessoas. 🌿

Mirella Almeida Soares é Técnica em Agrimensura e Engenheira florestal e está cursando Direito

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A conta da “cidade verde” não fecha

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A polêmica envolvendo a retirada das árvores da Rua Baltazar Navarro, em Cuiabá, vai muito além de uma discussão técnica sobre raízes, cupins ou risco de queda. O episódio expõe uma contradição que a população percebe com facilidade: não adianta o prefeito afirmar que não queria a retirada das árvores se a remoção aconteceu dentro da própria gestão municipal.

Quando um governo assume o discurso de transformar Cuiabá em uma “cidade verde de verdade”, a expectativa da população é de coerência entre fala e prática. E coerência significa que decisões ambientais importantes não podem surgir como surpresa nem para o próprio prefeito.

A justificativa técnica apresentada pela prefeitura pode até existir. Árvores doentes ou com risco estrutural realmente precisam de manejo responsável. O problema é que a discussão pública não gira apenas em torno da legalidade da retirada, mas da mensagem política transmitida à cidade. O que ficou para muitos cuiabanos foi a imagem de mais uma rua perdendo sombra, identidade e qualidade ambiental em uma capital já marcada pelo calor extremo e pela redução constante das áreas verdes.

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O próprio prefeito já criticou, em outras ocasiões, a retirada de árvores urbanas. Agora, diante da repercussão negativa, surge o discurso de que a decisão teria partido de setores técnicos ou servidores da administração. Mas essa separação não convence totalmente. Em qualquer gestão pública, os atos praticados pelos órgãos municipais são responsabilidade da administração como um todo. Quando uma árvore é retirada com autorização oficial, não foi “a prefeitura de outra pessoa” que autorizou — foi a gestão atual.

Governar também significa assumir as consequências das decisões tomadas dentro da própria estrutura administrativa. Se houve erro de avaliação, falta de sensibilidade ambiental ou ausência de planejamento, cabe à gestão reconhecer e corrigir. Tentar se distanciar politicamente de uma ação autorizada pelo próprio município acaba transmitindo sensação de desorganização e fragilidade administrativa.

Outro ponto importante é que a população não discute apenas árvores. O debate é sobre modelo de cidade. Cuiabá perdeu parte significativa de sua cobertura vegetal nas últimas décadas, enquanto bairros inteiros se tornam cada vez mais quentes e impermeabilizados. Nesse contexto, árvores adultas possuem um valor ambiental que não se recompõe rapidamente com mudas recém-plantadas.

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Plantar novas árvores é importante. Mas preservar as já existentes deveria ser prioridade sempre que possível. Porque uma muda leva décadas para oferecer a sombra, a redução térmica e o impacto ambiental positivo de uma árvore consolidada.

A repercussão da Rua Baltazar Navarro mostra que a população está mais atenta às questões ambientais e cobra coerência entre discurso e prática. Não basta anunciar metas de arborização enquanto ruas tradicionais perdem árvores históricas. Uma cidade verdadeiramente verde não se constrói apenas com promessas futuras, mas também com a preservação do patrimônio ambiental que ainda existe hoje.

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