O bilhete premiado da Mega-Sena, avaliado em R$ 29 milhões, que está no centro de uma disputa judicial em Sinop, estava guardado em uma estrutura metálica dentro da casa lotérica antes do suposto furto que desencadeou a investigação da Polícia Civil.
O caso envolve um casal investigado por supostamente se apropriar do bilhete premiado após o sorteio. A defesa sustenta que o local apontado pela lotérica como “cofre” não passava de um compartimento de uso coletivo onde funcionários guardavam bolsas, objetos pessoais e itens do trabalho.
Segundo relatos de ex-funcionários ouvidos pela imprensa, o espaço era utilizado no dia a dia pelos operadores de caixa.
“Era um cofre onde a gente guardava nossas coisas pessoais e coisas da lotérica. Tinha uma gaveta para objetos da lotérica e outra para dinheiro de cada operadora após o fechamento do caixa”, relatou um ex-funcionário.
A lotérica, por sua vez, sustenta no processo que o bilhete com defeito, ao permanecer no estabelecimento, passou a integrar o patrimônio da empresa.
Já o advogado do casal, Macgveyver Santos Rocha, contesta essa tese. Segundo ele, quando um bilhete é impresso com defeito, o prejuízo costuma ser descontado diretamente do salário do operador de caixa responsável.
Dessa forma, a defesa argumenta que a verdadeira proprietária da aposta seria a funcionária, já que ela teria arcado financeiramente com o bilhete defeituoso.
Como o bilhete foi impresso
De acordo com a investigação, no dia do sorteio, a operadora de caixa atendeu uma cliente e imprimiu uma aposta simples de R$ 6, mas o bilhete saiu com um pequeno corte no código de barras.
Embora o defeito não comprometesse os números da aposta, um novo volante foi emitido para a cliente.
Ex-funcionários afirmam que esse procedimento era comum na rotina da lotérica.
Quando apostas de baixo valor saíam com defeito, os operadores normalmente cobriam o prejuízo com recursos próprios, pois o cancelamento junto à Caixa Econômica Federal era burocrático.
Segundo o Manual das Lotéricas da Caixa, o estorno de apostas simples ou bolões só pode ser realizado para bilhetes com valor superior a R$ 10.
A defesa afirma que, após cobrir o valor da aposta defeituosa, a funcionária guardou o bilhete no compartimento metálico e voltou ao trabalho.
No dia seguinte, ao conferir os números sorteados, ela descobriu que a aposta era uma das vencedoras da Mega-Sena.
Linha do tempo do caso
Segundo o inquérito, os fatos ocorreram da seguinte forma:
- A funcionária imprimiu um bilhete com defeito para uma cliente;
- Um novo bilhete com os mesmos números foi emitido e entregue à apostadora;
- O bilhete defeituoso não foi cancelado e foi guardado dentro da lotérica;
- Após a divulgação do resultado, a funcionária retirou o bilhete e percebeu que ele era premiado;
- No dia seguinte, ela e o marido pediram demissão;
- O marido se apresentou como ganhador do prêmio;
- Os proprietários da lotérica suspeitaram da situação;
- A Polícia Civil foi acionada para investigar o caso.
Após a conclusão do inquérito, o Ministério Público denunciou a funcionária e o marido por furto qualificado por abuso de confiança.
O que diz o STJ
Em decisão enviada à Justiça Federal, o ministro Ribeiro Dantas, do Superior Tribunal de Justiça, afirmou que o crime teria sido consumado no momento em que o bilhete foi retirado do cofre — ou compartimento — da lotérica após a conferência do resultado.
Segundo o magistrado, o prejuízo foi inicialmente suportado pela empresa, o que faria com que o bilhete integrasse o patrimônio da lotérica.
Trecho da decisão aponta que, pelas regras comerciais da atividade lotérica, o título premiado estaria sob disponibilidade da pessoa jurídica.
Ainda conforme o ministro, eventual tentativa posterior de sacar o prêmio junto à Caixa não configura um novo crime, sendo apenas consequência do suposto furto inicial.
Nesta semana, o STJ negou recurso da defesa do casal, mantendo o andamento do processo na Justiça Estadual.
Enquanto a disputa judicial segue, o prêmio de R$ 29 milhões permanece bloqueado desde 2023 por determinação da Justiça.
Jornalista: Luan Schiavon
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