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Ranalli tenta explicar o inexplicável após colocar burro no mapa do Nordeste

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O vereador de Cuiabá Rafael Ranalli (PL) decidiu reagir à repercussão negativa provocada por uma publicação feita após o primeiro turno das eleições, mas a tentativa de explicar o episódio acabou colocando ainda mais combustível em uma discussão que já havia ultrapassado as redes sociais.

Após compartilhar uma imagem do mapa do Brasil com a representação de um burro sobre o território do Nordeste, Ranalli apagou a publicação e posteriormente gravou um vídeo ao lado de um apoiador vestido com elementos associados à cultura sertaneja nordestina. A estratégia foi utilizada pelo parlamentar para reforçar a alegação de que não teve a intenção de atacar ou ofender os nordestinos.

A publicação ocorreu logo depois da apuração do primeiro turno, quando Luiz Inácio Lula da Silva (PT) terminou à frente de Flávio Bolsonaro (PL) nos nove estados nordestinos. Segundo os dados eleitorais divulgados após a votação, Lula recebeu 63,77% dos votos válidos na região, enquanto Flávio Bolsonaro somou 30,85%.

Foi justamente nesse contexto que surgiu a imagem que colocou o Nordeste inteiro sob a representação de um animal.

E é aí que começa o problema político da explicação.

“Foi crítica política”, diz vereador

Em vídeo publicado após a repercussão, Ranalli afirmou que a postagem não tinha como alvo a população nordestina, mas somente o comportamento eleitoral da região.

“Em momento algum eu tentei atingir os meus irmãos nordestinos. […] O que eu critiquei e critico, sim, é a forma de votação, o lado que escolhem. Foi uma crítica política, estritamente política”, afirmou.

O argumento, entretanto, não elimina a controvérsia sobre a forma escolhida para transmitir a mensagem.

Criticar o desempenho de um candidato em determinada região faz parte do debate democrático. O ponto questionado no episódio é outro: por que representar uma região inteira por meio de um animal justamente depois de seus eleitores terem escolhido, majoritariamente, um candidato diferente daquele apoiado pelo vereador?

A imagem não mostrava apenas um candidato, uma legenda ou uma urna. O território inteiro do Nordeste aparecia associado ao animal.

Foi essa associação que provocou a reação pública e levou o episódio para além da disputa política entre Lula e Flávio Bolsonaro.

Amizades nordestinas viram argumento de defesa

Na tentativa de afastar qualquer interpretação de preconceito regional, Ranalli também destacou que mantém relações pessoais e profissionais com pessoas nordestinas.

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“Tenho muitos amigos, parceiros, colegas da Polícia Federal que são antigões e nordestinos”, declarou.

O vereador também lembrou que não nasceu em Mato Grosso e afirmou ter orgulho de sua origem paranaense.

“Como eu seria um cara contra, um forasteiro, se eu sou o forasteiro aqui no Mato Grosso, em Cuiabá? Sou paranaense com muito orgulho”, afirmou.

A origem do parlamentar, porém, não resolve por si só a discussão provocada pela postagem. Ter amigos ou colegas de determinada região não impede que uma manifestação pública seja interpretada como ofensiva por pessoas pertencentes ao grupo representado.

No debate público, o que está em discussão é o conteúdo da mensagem publicada e o contexto em que ela foi apresentada.

“Burro” virou argumento político

Em entrevista coletiva, Ranalli tentou explicar a utilização do animal afirmando que a expressão faria parte da linguagem informal utilizada na polarização política brasileira.

Segundo ele, enquanto eleitores de direita são chamados de “gado”, simpatizantes da esquerda seriam associados a “jumentos” ou “burros”.

O problema é que uma coisa é utilizar apelidos em uma disputa política entre grupos organizados. Outra é colocar a imagem de um animal sobre o mapa de uma das cinco regiões brasileiras, imediatamente depois de o resultado eleitoral revelar uma preferência majoritária diferente da defendida pelo autor da publicação.

A diferença não está apenas na palavra utilizada. Está no alvo e na dimensão da representação.

Reação chega ao Ministério Público

A repercussão não ficou restrita às redes sociais. O Ministério Público de Mato Grosso informou ter recebido duas manifestações contra Ranalli relacionadas à publicação. As representações foram registradas na Ouvidoria e encaminhadas para análise da Promotoria de Justiça Cível.

Isso significa que o episódio passou a ser analisado também sob a perspectiva institucional, e não apenas como uma briga de opiniões nas redes sociais.

Até aqui, não há decisão que estabeleça responsabilidade criminal do vereador pelo episódio. O que existe são manifestações e representações que deverão ser analisadas pelas autoridades competentes.

Vereador critica imprensa e diz ter sido ameaçado

Além de defender a própria publicação, Ranalli também atacou a cobertura jornalística do episódio.

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O vereador afirmou que veículos de comunicação regionais estariam utilizando o caso com interesses político-partidários para prejudicá-lo e reclamou da ausência de destaque para projetos de sua autoria na Câmara de Cuiabá.

Ele também afirmou ter recebido ameaças depois que a publicação ganhou repercussão.

“Hoje postaram lá, me mandaram mensagem que vão me degolar, que eu mereço… Porque me falaram que vão me degolar e eu tenho criança pequena”, relatou.

Eventuais ameaças contra o parlamentar devem ser tratadas separadamente da controvérsia envolvendo a publicação. Uma manifestação ofensiva não autoriza ameaças ou violência contra quem quer que seja.

Da provocação à tentativa de explicação

O episódio deixa uma questão evidente no debate político: crítica eleitoral pode ser dura, irônica e até provocativa, mas a escolha do símbolo utilizado também comunica alguma coisa.

Ranalli diz que criticou votos, não nordestinos. A imagem, porém, foi publicada sobre o mapa da própria região Nordeste e surgiu exatamente depois de o eleitorado dos nove estados ter dado ampla vantagem a Lula.

Agora, a explicação precisa disputar espaço com a imagem que já circulou nas redes.

E há uma ironia difícil de ignorar: o vereador afirma que pretendia fazer uma crítica política, mas precisou gravar um novo vídeo para explicar que a crítica não era contra as pessoas que aparecem no próprio contexto da representação utilizada.

No fim, o caso mostra como a polarização eleitoral pode transformar uma provocação de poucos segundos em uma crise política, institucional e de imagem.

A postagem foi apagada. A repercussão, não.

E o mapa continua sendo o mesmo: o Nordeste não é um partido, não é um candidato e muito menos uma caricatura eleitoral. É uma região formada por nove estados, centenas de municípios e milhões de eleitores que têm o direito constitucional de escolher quem quiserem — inclusive candidatos que contrariem a preferência política de um vereador de Cuiabá.

O voto pode ser criticado. O eleitor também pode ser questionado politicamente. Mas a forma escolhida para fazer essa crítica é justamente o que colocou Ranalli no centro da polêmica.

 

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Vereador Rafael Ranalli publica imagem com burro sobre o Nordeste e critica eleitores de Lula

Parlamentar de Cuiabá associou resultado eleitoral da região a índices de pobreza e analfabetismo; publicação gerou repercussão nas redes sociais

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O vereador de Cuiabá Rafael Ranalli (PL) publicou nas redes sociais uma imagem do mapa do Brasil com a figura de um burro sobre a região Nordeste. A postagem foi feita após o primeiro turno das eleições presidenciais, realizado no domingo (4), e teve como alvo o desempenho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na região.

Na legenda, Ranalli escreveu: “Nordeste faz o L e continua na pobreza. Lula lidera entre os estados com maiores índices de pobreza e analfabetismo do país.”

A publicação faz referência ao resultado das urnas nos nove estados nordestinos, onde Lula terminou o primeiro turno à frente de Flávio Bolsonaro (PL).

Segundo os dados eleitorais, o Nordeste foi a única região em que Lula manteve vantagem ampla sobre o adversário. No Piauí, por exemplo, o petista alcançou 70,99% dos votos válidos, enquanto Flávio Bolsonaro teve 24,09%. Na Bahia, Lula obteve 66,17%, contra 28,53% de Flávio.

Apesar da vantagem de Lula no Nordeste, Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno na liderança nacional. De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ele recebeu 56.104.268 votos, correspondentes a 47,03% dos votos válidos. Lula somou 53.876.617 votos, ou 45,16%. Os dois avançaram para o segundo turno, marcado para 25 de outubro.

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O resultado mostra uma divisão regional do eleitorado. Flávio Bolsonaro venceu em 14 estados e no Distrito Federal, enquanto Lula liderou em 12 estados, com concentração de sua votação principalmente no Nordeste.

A publicação de Ranalli relaciona o comportamento eleitoral da região a indicadores sociais, mas a imagem utilizada pelo vereador também abriu espaço para críticas sobre a forma como os eleitores nordestinos foram representados.

A disputa presidencial agora segue para o segundo turno, quando os dois candidatos deverão buscar votos em regiões e segmentos do eleitorado onde não obtiveram maioria no primeiro turno.

Jornalista: Mika Sbardelott

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