A um dia do novo julgamento do empresário Carlos Alberto Gomes Bezerra, réu confesso pelos assassinatos da ex-companheira Thays Machado e do namorado dela, Willian César Moreno, a defesa afirmou que a influência política da família do acusado e o período eleitoral têm criado dificuldades para a condução do processo. O júri popular está marcado para esta sexta-feira (31), em Cuiabá.
As declarações foram feitas pelo advogado Elson Marcelino da Silva, que integra a equipe de defesa do empresário. Segundo ele, o peso político do ex-deputado federal Carlos Bezerra (MDB), pai do réu, faz com que autoridades e operadores do Direito ajam com receio de sofrer represálias.
“Com relação ao pai dele ter sido governador, eu digo que sim. Nós sofremos um entrave muito grande. As pessoas não querem se mexer, não querem tomar partido, não querem fazer algo com medo da represália, com medo do que vai ser dito na mídia. A influência política aqui, ainda mais em ano eleitoral, é um absurdo. Ninguém quer fazer nada com receio”, afirmou.
Defesa nega manobras protelatórias
O advogado também rebateu críticas de que os sucessivos recursos apresentados pela defesa teriam como objetivo apenas adiar o julgamento. Segundo ele, a estratégia adotada segue o mesmo padrão utilizado em qualquer processo criminal, independentemente da condição financeira ou da notoriedade do cliente.
“Meu nome tem que ser levado a sério, não por questão financeira, e sim quando eu assumo a defesa. Em todos os casos que nós atuamos, independente de condição financeira ou de quem é filho, nós esgotamos todas as possibilidades”, disse.
Elson Marcelino afirmou que o objetivo da defesa não é impedir a realização do júri, mas garantir que o julgamento ocorra com respeito ao devido processo legal e ao direito de ampla defesa.
Possibilidade de novo abandono do plenário
Apesar da confirmação do julgamento, o advogado não descartou abandonar novamente o plenário caso entenda que não existam condições adequadas para o exercício da defesa.
Segundo ele, a equipe continua sustentando que o prazo concedido para análise dos autos é insuficiente e revelou que existe, sim, a possibilidade de uma nova retirada durante a sessão.
A defesa também informou que ingressou com recurso no Supremo Tribunal Federal (STF) para tentar obter mais tempo para estudar o processo e aguarda decisão da Corte.
TJ-MT mantém juíza no caso
As declarações foram dadas um dia após o Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT) rejeitar mais um recurso da defesa e manter a juíza Mônica Catarina Perri Siqueira à frente do julgamento.
A decisão foi proferida na quarta-feira (29) pelo juiz convocado Francisco Alexandre Ferreira Mendes Neto, que negou o pedido de afastamento da magistrada e também rejeitou a suspensão do júri.
No recurso, os advogados alegavam suposta parcialidade da juíza, apontando manifestações sobre as provas do processo, dificuldades de acesso a mídias digitais e a comunicação feita à Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) após os defensores abandonarem o plenário durante o julgamento marcado para o último dia 21.
Ao analisar o pedido, o magistrado destacou que a suspensão de um júri é medida excepcional e exige demonstração concreta de parcialidade, o que, segundo ele, não foi comprovado.
Na decisão, Francisco Mendes Neto ressaltou que a manifestação da juíza apenas reproduziu entendimento consolidado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) e que a comunicação à OAB após o abandono do plenário está prevista na legislação, não sendo suficiente para caracterizar suspeição ou inimizade da magistrada.
Além do recurso ao TJMT, a defesa informou que também apresentou representações contra a juíza na Corregedoria-Geral da Justiça de Mato Grosso e no Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
Novo julgamento
O novo júri foi designado após a sessão realizada em 21 de julho ser interrompida em razão da saída dos advogados de defesa durante os trabalhos.
Na ocasião, a juíza Mônica Perri classificou a conduta como “inconcebível” e determinou que, caso os atuais defensores não compareçam ou abandonem novamente o plenário, a Defensoria Pública assumirá imediatamente a representação do réu.
Crime ocorreu em 2023
Carlos Alberto Gomes Bezerra responde pelo assassinato da ex-companheira Thays Machado e do empresário Willian César Moreno, crime ocorrido em janeiro de 2023, em frente ao Edifício Solar Monet, no bairro Consil, em Cuiabá.
Segundo as investigações, o empresário surpreendeu o casal enquanto ambos aguardavam um carro de aplicativo e efetuou diversos disparos de arma de fogo.
De acordo com a Perícia Oficial e Identificação Técnica (Politec), Thays foi atingida por três tiros, dois nas costas e um no quadril. Willian foi baleado no braço esquerdo e no peito.
À época do crime, Thays era servidora do Tribunal de Justiça de Mato Grosso, enquanto Willian atuava como empresário em São Paulo.
Jornalista: Mika Sbardelott
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