Em depoimento prestado durante o júri popular realizado nesta sexta-feira (31), em Cuiabá, Carlos Alberto Gomes Bezerra, réu confesso pelo assassinato de Thays Machado e Willian César Moreno, negou que perseguia a ex-namorada e sustentou que agiu em legítima defesa ao efetuar os disparos que mataram o casal em 18 de janeiro de 2023.
Durante o interrogatório, o acusado classificou o crime como uma “tragédia” e afirmou que convive diariamente com o arrependimento. Segundo ele, o confronto ocorreu após Willian supostamente chamá-lo de “corno babaca” e avançar em sua direção para agredi-lo.
Ao relatar sua versão dos fatos, Bezerra afirmou que manteve um relacionamento de três anos e sete meses com Thays Machado, período que definiu como “muito bom”, apesar de episódios de instabilidade. Segundo o réu, o casal fazia planos de casamento e ele pretendia registrar a filha da vítima. O rompimento definitivo, conforme seu relato, aconteceu durante o Réveillon de 2022, após crises de ciúmes e desentendimentos.
Réu diz que foi procurar explicações para o término
Sobre o dia do crime, Carlos Alberto afirmou que decidiu procurar Thays para entender os motivos do fim do relacionamento. Ele admitiu ter ido até a rodoviária e, posteriormente, à residência da mãe da vítima, após visualizar sua localização por meio de um sistema de compartilhamento mútuo entre os celulares.
Segundo o acusado, ao passar em frente ao edifício onde a mãe de Thays mora, viu a ex-companheira acompanhada de Willian Moreno. Ele contou que deu marcha à ré, abaixou o vidro do veículo para conversar e, naquele momento, o namorado da vítima teria reagido de forma agressiva.
“O homem veio em minha direção e disse: ‘corno babaca, vaza'”, declarou o réu, acrescentando que acreditou que seria imobilizado com um golpe conhecido como “mata-leão”.
“Se ele me pegasse em um mata-leão, para mim já era”, afirmou.
Ainda conforme o depoimento, ele disse que perdeu o controle emocional e efetuou os disparos a cerca de dois metros de distância. O acusado estava dentro do carro enquanto Willian permanecia na calçada.
Questionado pela magistrada sobre como a vítima conseguiria aplicar um golpe de estrangulamento estando ele no interior do veículo, Bezerra respondeu que Willian poderia “passar a mão por dentro” da janela do automóvel.
Ministério Público contesta versão apresentada
O Ministério Público de Mato Grosso rebateu a tese de legítima defesa durante o julgamento. Os promotores destacaram que a alegação de que Willian teria investido contra o veículo nunca havia sido apresentada anteriormente ao longo da investigação.
O órgão ministerial também questionou o fato de o acusado ter deixado Cuiabá logo após o crime e seguido para a região de Campo Verde. Em resposta, Bezerra negou que estivesse fugindo.
Segundo ele, dirigiu até a propriedade da família para “racionalizar” os acontecimentos e afirmou que pretendia se apresentar às autoridades posteriormente.
Anotações sobre rotina da vítima
Outro ponto abordado durante o interrogatório foi o material apreendido pela Polícia Civil, contendo relatórios detalhados sobre a rotina de Thays Machado.
Bezerra negou ter instalado rastreadores ou sistemas clandestinos de monitoramento. Segundo ele, as anotações eram feitas por causa de uma suposta perda de memória fotográfica após contrair covid-19, em 2019.
O acusado afirmou que tinha o hábito de registrar informações por escrito e acrescentou que a própria Thays também costumava guardar fotografias e capturas de tela.
A oitiva foi encerrada depois que a defesa orientou o réu a exercer o direito constitucional ao silêncio diante dos questionamentos formulados pela juíza.
Na parte final do interrogatório, Carlos Alberto declarou estar arrependido.
“Não há um único dia em que não me arrependa de ter tirado a vida dela e da relação dela com a filha”, afirmou.
O crime
Thays Machado e o então namorado, Willian César Moreno, foram mortos a tiros na tarde de 18 de janeiro de 2023, em frente ao condomínio Solar Monet, onde mora a mãe da vítima, em Cuiabá.
Carlos Alberto Gomes Bezerra, filho do ex-deputado federal Carlos Bezerra, é apontado como autor dos disparos.
As investigações concluíram que o acusado monitorava a rotina da ex-companheira e mantinha anotações detalhadas sobre seus deslocamentos.
Imagens de câmeras de segurança divulgadas na época mostram o veículo Renault Kwid conduzido por Bezerra passando em frente ao condomínio, retornando de marcha à ré para se aproximar das vítimas e efetuando mais de dez disparos. Thays e Willian foram atingidos por três tiros cada e morreram ainda no local.
Após o duplo homicídio, o acusado deixou Cuiabá e foi localizado horas depois em uma fazenda da família, no município de Campo Verde, onde acabou preso pela polícia.
Jornalista: Luan Schiavon
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