e antes o motorista cuiabano precisava apenas desviar de buracos, agora pode também ler enquanto dirige. Em alguns trechos onde a concessionária Águas Cuiabá realizou intervenções na rede de água e esgoto, a recomposição do asfalto ganhou um novo carimbo: “provisório”. Uma espécie de aviso prévio ao contribuinte — pode durar pouco.
Na rua Traçaia, no cruzamento com a rua Luís de Siqueira, ao lado da Arena Pantanal, no bairro Jardim Primavera, o problema já é conhecido dos moradores. Buracos, lama e vazamentos voltaram a dar as caras e, após mais um reparo, o local recebeu a tal inscrição. A recomposição do pavimento, mais uma vez, ficou aquém do esperado.
Para o frequentador de uma igreja próxima, Gilberto Linhares, 53 anos, o “provisório” soa quase como sinceridade institucional. “Não é só falta de cuidado, é falta de planejamento. Sabem que vai quebrar de novo, mas ainda assim fazem assim”, lamenta. Segundo ele, o problema é antigo e recorrente. “Todas as vezes que tampam, estoura. Então, fazem isso para enrolar.”
No início da via, próximo à avenida Agrícola Paes de Barros, vazamentos já castigam o asfalto. Mais à frente, a rua apresenta ondulações e irregularidades típicas de quem já passou por mais intervenções do que deveria. No cruzamento com a avenida Senador Metello, no Jardim Cuiabá, uma tampa de registro ocupa quase metade da pista, cercada por um asfalto que se esfarela e forma uma depressão digna de teste para suspensão de veículo.
Goiabeiras e Centro: obstáculos em série
Na região do Goiabeiras, a avenida Senador Metello, próxima à avenida Ipiranga, também exibe os efeitos das obras de saneamento. Uma tampa de esgoto levantada e travada no meio da pista virou parte do cenário. O recorte no asfalto já apresenta afundamento — um detalhe que, na prática, transforma a via em pista de habilidade.
No Centro, onde as intervenções de saneamento disputam espaço com interdições e obras do BRT, a sobreposição de frentes de trabalho intensifica a sensação de desorganização. Na avenida Generoso Ponce, entre a rua 13 de Junho e a avenida Tenente-Coronel Duarte (Prainha), o asfalto recomposto no início de fevereiro já exibe uma sequência de buracos e imperfeições. O trecho, de fluxo intenso, virou um verdadeiro corredor de obstáculos.
O comerciante Carlos Henrique Souza, 42, que atua há mais de dez anos na região, relata prejuízos. “A gente entende que a obra é necessária, mas o problema é como fica depois. Além do transtorno durante a execução, depois de pronto surgem novos problemas.”
Na avenida Dom Aquino, também no Centro, um buraco profundo próximo ao meio-fio indica erosão sob o asfalto. A poucos metros, remendos mal executados começam a se desfazer, como se o prazo de validade fosse compatível com o selo recém-adotado.
A “campeã” dos problemas
Se há um ranking informal, comerciantes apontam a avenida Dom Bosco como líder em problemas por metro quadrado. O trecho onde foi implantada a rede de esgoto apresenta afundamentos frequentes e rompimentos constantes. Segundo relatos, somente neste ano já teriam sido realizadas mais de dez intervenções no mesmo ponto.
“Arruma hoje, daqui a pouco estoura de novo”, afirma o empresário Leonardo Schiller, 50, que relata prejuízos sucessivos em sua loja, agravados pelas chuvas.
Relatório e possível responsabilização
A Secretaria Municipal de Infraestrutura e Obras Públicas informou que está elaborando um levantamento técnico, a pedido do Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso, para avaliar as recomposições asfálticas feitas pela Águas Cuiabá que apresentaram falhas. O relatório, com quantificação de serviços e valores, deve ser concluído em cerca de dois meses e poderá embasar eventual responsabilização da concessionária.
Outro lado
Em nota, a Águas Cuiabá afirma que tem utilizado tecnologia para agilizar a recomposição das vias durante o período chuvoso, com aplicação de pavimento provisório a frio. Segundo a empresa, o material permite a liberação segura da pista e protege o solo contra erosões até a execução do pavimento definitivo, que deve ocorrer em até cinco dias úteis, conforme contrato.
A concessionária informa ainda que obras nas avenidas Dom Bosco, Isaac Póvoas e Generoso Ponce seguem em andamento e que, após a conclusão das interligações da rede de esgoto, será aplicada recomposição asfáltica com microrevestimento, técnica que promete maior durabilidade.
Quanto às tampas dos Poços de Visita nas ruas Traçaia e Senador Metello, a substituição está prevista para ser concluída até quinta-feira (18). A empresa reforça que todas as obras passam por garantia e que pontos fora do padrão são reavaliados e refeitos.
Enquanto isso, nas ruas da Capital, o “provisório” segue cumprindo seu papel: avisar que, ao que tudo indica, a próxima intervenção pode estar logo ali, na próxima esquina.
Jornalista: Mika Sbardelott