A empresária e advogada Thatiana Rabelo Mesquita Theodoro, sócia do bar Tatu Bola, localizado na Praça Popular, em Cuiabá, chorou durante audiência de custódia após ser presa preventivamente na terça-feira (25), no âmbito da Operação Bóreas, deflagrada pela Polícia Federal contra uma organização criminosa suspeita de transportar drogas e armas em aeronaves.
Durante a audiência, Thatiana afirmou ter se sentido como uma “prisioneira federal” desde o cumprimento do mandado de prisão. Ela foi detida por volta das 14h e encaminhada inicialmente à Perícia Oficial e Identificação Técnica (Politec), onde passou por exame de corpo de delito. Depois, foi levada para a Superintendência da Polícia Federal.
“Eu fui levada como se fosse uma prisioneira federal até à Politec”, declarou.
Segundo a empresária, naquele momento ela não sabia exatamente o motivo da prisão. Apenas tinha conhecimento de que a ordem havia sido expedida pela 4ª Vara Federal de Palmas, no Tocantins.
Empresária cita irmão preso por tráfico
Durante o depoimento, Thatiana mencionou o irmão, Márcio Rabello Mesquita Theodoro, que está preso por envolvimento em investigação relacionada ao tráfico de drogas.
Márcio foi preso em flagrante no ano passado enquanto pilotava uma aeronave Cessna 210M, de prefixo PS-PIX, que pousou irregularmente em uma pista localizada na zona rural de Caseara, no Tocantins. Segundo as informações apresentadas no caso, o avião transportava aproximadamente 475 quilos de cloridrato de cocaína e pasta base, além de cerca de 787 gramas de maconha ou haxixe.
Ele também possui antecedentes por tráfico de drogas e foi alvo, em 2015, da Operação Hybris, deflagrada pela Polícia Federal para desarticular uma organização criminosa ligada ao tráfico.
“Eu não sei do que se trata. Eu tenho um irmão que está preso fora. Imagino que deve ser algo ligado a ele por conta do mandado lá de Tocantins”, afirmou Thatiana.
A empresária também relatou surpresa com a prisão e destacou sua rotina profissional e pessoal.
“Eu estou me sentindo em um mundo totalmente fora da minha realidade. Eu tenho horário pra chegar no trabalho, eu tenho um comércio que é público, minhas redes sociais são abertas, eu tenho endereço fixo, eu declaro imposto de renda”, disse.
“Eu não faço ideia do fundamento ou como, com todo respeito ao Poder Judiciário, foi decretada uma preventiva. Eu nunca pisei em uma delegacia, eu nunca fui chamada pra ouvir nada, eu nunca tive o nome no Serasa pra hoje estar aqui na Polícia Federal. Talvez eu durma aqui hoje”, completou.
Defesa pede liberdade e aponta supostas irregularidades
Após o depoimento, o advogado Fernando Faria pediu que a prisão preventiva fosse substituída por medidas cautelares ou, alternativamente, convertida em prisão domiciliar. A defesa destacou ainda que a empresária é mãe de uma menina de 9 anos.
O pedido, porém, não foi analisado durante a audiência. O juiz federal Jeferson Schneider, que conduzia o ato, e o Ministério Público Federal (MPF) não tinham acesso à decisão que havia determinado a prisão preventiva.
Diante disso, os autos da comunicação da prisão foram encaminhados à 4ª Vara Federal Criminal do Tocantins, responsável por analisar a decisão e definir sobre a manutenção ou não da prisão.
O advogado também classificou a prisão como ilegal e desnecessária. Segundo ele, não existem elementos concretos que comprovem a participação da empresária nas atividades investigadas.
De acordo com Fernando Faria, um dos elementos utilizados para fundamentar a prisão seria uma mensagem trocada entre Thatiana e o irmão em 2024. A defesa sustenta que a conversa não possui relação com os fatos investigados pela Polícia Federal.
Defesa questiona apreensão de celular
Fernando Faria também apontou supostas irregularidades durante o cumprimento dos mandados de busca e apreensão.
Segundo o advogado, um dos agentes responsáveis pela diligência teria pegado o celular desbloqueado de Thatiana quando ela pretendia utilizar o aparelho para fazer uma ligação para um advogado.
Ainda conforme a versão apresentada pela defesa, o telefone teria sido colocado em modo avião e guardado no bolso do delegado, sem ser lacrado. O advogado afirma que o aparelho foi manuseado antes da chegada de um representante do Tribunal de Defesa das Prerrogativas (TDP) da OAB.
Para a defesa, a situação pode ter comprometido a cadeia de custódia do material apreendido.
O representante do TDP também relatou que foi comunicado sobre o cumprimento dos mandados de busca e apreensão e de prisão de Thatiana cerca de 30 minutos antes da ação. Segundo ele, o procedimento estaria em desacordo com provimento da OAB Nacional que prevê comunicação com antecedência mínima de 12 horas, sempre no dia anterior ao cumprimento dos mandados.
Operação investiga tráfico internacional
A Operação Bóreas foi deflagrada na terça-feira (25) pela Polícia Federal para desarticular uma organização criminosa suspeita de utilizar aeronaves no transporte de drogas e armas.
A investigação é conduzida pela Delegacia de Repressão a Entorpecentes da Polícia Federal no Tocantins, com participação da Força Integrada de Combate ao Crime Organizado e de agentes federais do Pará.
Conforme as investigações, o grupo seria responsável por organizar voos, utilizar pistas clandestinas e oferecer suporte logístico para o transporte de grandes carregamentos de cocaína e armas provenientes da Bolívia e do Peru.
Além da prisão de Thatiana, foram cumpridos outros dois mandados de prisão preventiva e três mandados de busca e apreensão.
A Justiça também determinou medidas de apreensão de aeronaves, bloqueio e sequestro de bens e valores. A Polícia Federal solicitou ainda a inclusão de dez investigados na lista de Difusão Vermelha da Interpol.
Os investigados poderão responder, conforme a participação de cada um e as provas reunidas na investigação, pelos crimes de tráfico internacional de drogas, organização criminosa e lavagem de dinheiro.
A defesa de Thatiana nega a existência de elementos concretos que justifiquem a prisão e questiona a legalidade dos procedimentos adotados durante a operação. As acusações ainda serão analisadas pela Justiça.
Jornalista: Mika Sbardelott
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