Enildes Corrêa

A Vida que a violência rouba: quando o suicídio é consequência da violência doméstica

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Nascer é receber o impulso de viver e ser feliz. Em todos os seres vivos, prevalece o instinto de autopreservação, força que impulsiona a continuidade da existência, seja qual for a sua natureza.

Ao ser humano, entretanto, a consciência de si, a capacidade de refletir sobre a própria existência e a liberdade de escolha conferiram-lhe uma condição única: a possibilidade de interromper a própria vida.

Esse desejo, via de regra, emerge quando o sofrimento se torna tão intenso que corrói, gradualmente, a esperança, a força vital e rompe a resistência ao enfrentamento da própria dor.

A partir dessas reflexões, cabe a indagação: por que algumas pessoas resistem a sofrimentos extremos, enquanto outras sucumbem a eles, chegando a desfechos fatais?

É nesse contexto que se insere a questão do suicídio — uma das expressões mais radicais da singularidade humana diante da dor.

Historicamente, porém, quando uma pessoa tirava a própria vida, pouco se questionava sobre o envolvimento ou a responsabilidade de terceiros: tudo recaía sobre o indivíduo, como se o ato decorresse apenas de sua vontade ou de uma suposta fraqueza emocional, mental ou espiritual.

Hoje, essa visão foi amplamente revista. O suicídio é reconhecido como um fenômeno complexo, multifatorial, multideterminante, resultante da interação entre fatores biológicos, psicológicos, sociais, ambientais, culturais e contextuais.

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Compreende-se, assim, que o sofrimento que antecede esse ato não se origina isoladamente no indivíduo, mas também nas relações que o constituem. A análise de cada caso, portanto, exige considerar o contexto em que o sofrimento foi desencadeado e agravado.

Essa visão mais ampla é fundamental para analisar o suicídio no âmbito da violência doméstica. Em muitos casos, o sofrimento que culmina nesse desfecho decorre de um histórico de violências reiteradas, marcado por humilhações, desqualificação, ameaças, isolamento, controle coercitivo, manipulação emocional e, cada vez mais, violência digital. Ao longo desse processo, o agressor promove a destruição progressiva da autoestima, da autonomia e da capacidade de resistência da vítima.

A literatura científica evidencia que a violência psicológica prolongada aumenta significativamente o risco de ideação suicida em mulheres aprisionadas em relações abusivas.

Reconhecer que a violência doméstica, especialmente em sua dimensão psicológica, também pode conduzir ao suicídio representa um avanço ético, científico e jurídico. Foi a partir desse entendimento que surgiu o PL 2.493/2026, de autoria da deputada federal Maria do Rosário com a relevante contribuição da defensora pública de Mato Grosso, Dra. Rosana Leite Barros, que propõe alterações na legislação penal para oferecer respostas jurídicas mais adequadas a uma realidade por muito tempo invisibilizada pelo Direito brasileiro.

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O suicídio encerra a vida da vítima, mas nem sempre põe fim à violência simbólica que recai sobre sua memória. Mesmo após a morte, muitas mulheres continuam sendo julgadas e condenadas por uma sociedade que desconhece a complexidade de suas histórias e, não raro, transforma vítimas em responsáveis pelo próprio sofrimento.

A violência, então, permanece no julgamento, no estigma e no apagamento das circunstâncias que levaram a esse desfecho.

Que a leitura deste artigo se transforme também em compromisso. Apoiar o projeto de lei 2.493/2026 é defender que histórias marcadas pela violência não sejam reduzidas ao silêncio, que vítimas não sejam culpabilizadas e a Justiça responsabilize aqueles que contribuíram para violências que ceifaram a vida de tantas mulheres, deixando marcas profundas em famílias inteiras.

Que a paz alcance todas as mulheres vítimas da violência masculina. Que a memória de cada uma delas seja preservada e suas famílias jamais sejam revitimizadas, sob qualquer hipótese.

Que prevaleçam o respeito, o acolhimento e o direito de viver o luto sem novos julgamentos, que tantas vezes prolongam a violência para além da morte.

Enildes Corrêa é administradora, cronista e ativista em defesa da vida e dos direitos das mulheres.

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Julho: Mês Nacional das Olimpíadas Científicas e do Conhecimento

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Julho entrou oficialmente no calendário educacional brasileiro como o Mês Nacional das Olimpíadas Científicas e do Conhecimento. Instituída pela Lei nº 15.331, a data reconhece publicamente a contribuição dessas competições educacionais para o estímulo ao aprendizado, ao desenvolvimento da vocação científica e ao fortalecimento do pensamento crítico entre estudantes.

A Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica (OBA) é realizada há 29 anos e a Olimpíada Brasileira de Foguetes (OBAFOG) é realizada há 20 anos. A OBA ao longo desse período, acompanhou milhares de estudantes que participaram das atividades, descobriram novos interesses e seguiram carreira acadêmica até níveis de doutorado e pós-doutorado.

O principal objetivo das olimpíadas não é aproximá-los de áreas específicas do conhecimento. Uma olimpíada abre portas para o aluno descobrir aquilo que mais gosta de estudar e fazer.

No caso da OBA, o trabalho acontece em duas áreas complementares. A astronomia é apresentada como uma das ciências mais antigas, surgida da observação humana do céu e da relação entre fenômenos celestes e mudanças percebidas na Terra. Já a astronáutica é mais recente, associada ao desenvolvimento da exploração espacial e dos recursos necessários para levar instrumentos e observações além da atmosfera. Ambas evoluem em conjunto.

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O mês nacional representa um reconhecimento ao trabalho desenvolvido pelos organizadores das olimpíadas e pelas sociedades científicas envolvidas. Quando escolas, professores e estudantes aderem às olimpíadas, aprofundam conteúdos e ampliam o contato com determinadas áreas do conhecimento. A participação representa um diferencial, especialmente quando acompanhada por certificados e reconhecimento institucional.

As medalhas aparecem como elemento de incentivo para estudantes, professores e escolas. O desempenho dos alunos em olimpíadas costuma ser motivo de orgulho para toda a comunidade escolar e para as famílias, especialmente porque as avaliações são elaboradas por especialistas externos e seguem critérios diferentes das avaliações tradicionais realizadas em sala de aula.

Além das provas escritas, há diferentes formatos de participação. Na OBAFOG, por exemplo, o participante desenvolve uma atividade prática, construindo foguetes com materiais acessíveis e colocando o projeto em funcionamento.

A partir do desempenho dos estudantes, diversas universidades brasileiras passaram a oferecer vagas olímpicas como critério de ingresso para determinados cursos. O modelo considera aspectos como quantidade de medalhas conquistadas, áreas de participação e regras específicas estabelecidas por cada universidade.

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As olimpíadas científicas estimulam o interesse dos jovens pelo conhecimento e fortalece a relação com a escola. Nesse contexto, iniciativas como a OBA e a OBAFOG se apresentam como espaços para explorar interesses, desenvolver habilidades e ampliar o contato com diferentes áreas científicas. Logo, valorizar as Olimpíadas do Conhecimento significa incentivar a curiosidade e ampliar oportunidades de aprendizado.

(*) Prof. Dr. João Batista Garcia Canalle é astrônomo e coordenador da Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica (OBA) da Olimpíada Brasileira de Foguetes (OBAFOG).

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